domingo, 16 de agosto de 2015

Tive o prazer de assistir em 1938…


às festas que levaram Monsanto à conquista do galo de prata, no concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal, que Salazar proclamou através do SPN (Secretariado da Propaganda Nacional), o qual visava desenvolver nos portugueses o culto pela tradição, estimulando o regionalismo nacional.
Em todo o país concorreram 36 aldeias. Na Beira Baixa só o Paul e Monsanto.
Foi no dia 28 de Setembro, durante as férias escolares, tinha eu feito 11 anos, 20 dias antes.  

Era já noite, quando o júri entrou na aldeia, passando por entre longas filas de povo, que lhe veio iluminar o caminho, com grandes tochas e candeias de azeite acesas, porque a eletricidade, em Monsanto, na altura, era um mito de ficção científica. As Janeiras foram cantadas a quatro vozes, seguindo-se a procissão do Enterro do Senhor e a Encomenda das Almas, ao mesmo tempo que o Madeiro ardia, em frente à igreja.
Nessa noite, no nosso grupo composto por miúdos entre os 10 e os 12 anos, primos na maior parte, ninguém pensava em dormir. A excitação era geral. Já de madrugada, o júri e a sua comitiva dividiram-se pelas casas das gentes ricas da Aldeia, para comer e alojar. No dia seguinte, foi o programa de cantares, danças jogos e cortejos. Fernanda de Castro, escritora, foi levantada ao colo, pelas mulheres da aldeia. Ela e o marido, António Ferro, Diretor do Secretariado da Propaganda Nacional que faziam parte do Júri, foram padrinhos de um casamento e um outro casal de um batizado. Depois veio a festa da Divina S.ta Cruz que relembrou os feitos antigos daquele castelo. Pelas ruas da Aldeia, havia quadros em movimento (ida á romaria, a caminho da apanha da azeitona, mães a embalar o menino, cenas de namoro, ida á fonte, etc.), tudo com os antigos trajes regionais. Pois algumas raparigas chegaram a exibir o vestuário das suas bisavós que jazia há anos nos fundos das arcas coberto com bolas de naftalina. Foi uma noite e um dia de loucura, para miúdos de 10 a 12 anos que agora já passaram dos 80 e outros já faleceram, como o meu primo António Mena e a minha prima Isaura que foi casada com o escritor Fernando Namora, também já falecido.

No dia 7 de Outubro de 1938, o Júri no SPN começa a eliminar concorrentes ficando apenas Monsanto, no concelho de Idanha-a-Nova, Paul, no concelho da Covilhã e Bucos, no concelho de Cabeceiras de Basto, em igualdade de circunstâncias. E só no dia dez á tarde é que MONSANTO é eleito, por maioria, a "ALDEIA MAIS PORTUGUESA DE PORTUGAL"

No primeiro dia do mês de Dezembro, vão a Lisboa 181 meninos das escolas, a convite da Câmara Municipal de Lisboa, onde visitam o Castelo de S.Jorge, o Jardim Zoológico, a Câmara Municipal e um submarino, onde lhes é explicado, para que servia e que o tinha comprado o Sr. Salazar, para defesa do nosso Pais.

No dia 4 de Fevereiro de 1939, no teatro Almeida Garrett, (hoje teatro D.Maria) realizou-se a festa de gala, para distribuição dos prémios literários de 1934 e entrega do Galo de Prata à delegação do povo de Monsanto, em que António Ferro fez um discurso do qual destaco aqui os dois trechos, para mim, mais interessantes:

“…E cabe, neste momento, responder a certas criticas provocadas pela nossa iniciativa. Houve quem julgasse, por exemplo, que pretendíamos imitar os famigerados concursos de beleza e que tínhamos apenas, portanto, a ingénua preocupação de escolher, de dois em dois anos, a Miss Aldeia Mais Portuguesa. Outros ergueram-se a afirmar, com aparente razão, que todas as aldeias da nossa terra são igualmente portuguesas e que distinguir uma seria ofender as outras. Observou-se, ainda, que a aldeia mais portuguesa pode, às vezes, ser a mais atrasada. Todas estas críticas puramente exteriores, para não lhes chamar superficiais, foram dirigidas mais ao contorno da ideia do que ao seu fundo. A verdade é que no concurso da aldeia mais portuguesa, o que vale menos é o seu título, apenas necessário, indispensável, como estímulo. Este concurso, vale, sobretudo, pelo pretexto que nos dá de mergulhar na terra portuguesa, de lhe arrancar alguns dos seus segredos, de encontrar, aqui e além, escondidas entre as rochas, no alto das montanhas, ou no coração dos vales, as nascentes da raça….”A primeira aldeia mais portuguesa, o primeiro fruto da nossa ideia foi Monsanto. Gratos lhe ficamos. Monsanto veio provar, luminosamente, a utilidade e o nacionalismo da nossa ideia. Até ser-lhe atribuído o Galo de Prata, galo que simboliza o apelo ao trabalho, ninguém conhecia Monsanto, ninguém suspeitava da sua existência de burgo solitário, de sentinela vigilante da Pátria. Monsanto é mais uma fortaleza moral da nossa terra, síntese das virtudes da raça, nossa rígida bandeira de pedra. A pequenina mas altaneira terra beiroa, com a alma de Portugal em seus braços erguidos, tornou-se um símbolo. Monsanto é de facto, a imagem empolgante da nossa pobreza honrada e limpa, que não inveja nem quer a riqueza de ninguém, selo da pátria espiritual que fomos e queremos ser. No alto do Monte Sacro dos romanos, aos pés das ruinas fortes do castelo, este povo vive contente a rezar, a dançar e a cantar, dando lições de optimismo às cidades fatigadas, pessimistas, compreendendo, como poucos, o ressurgimento português, mais ávido de bens espirituais – a escola, a igreja, a família – do que materiais. As necessidades são muitas, a terra, por vezes, é madrasta, mas com os olhos cheios de estrelas e o coração cheio de cantigas, considera-se feliz, porque se sente mais perto do céu do que os outros que vivem lá em baixo.