às festas que levaram Monsanto à conquista do galo de
prata, no concurso da Aldeia Mais Portuguesa de Portugal, que Salazar proclamou
através do SPN (Secretariado da Propaganda Nacional), o qual visava desenvolver
nos portugueses o culto pela tradição, estimulando o regionalismo nacional.
Em todo o país concorreram 36 aldeias. Na Beira Baixa
só o Paul e Monsanto.
Foi no dia 28 de Setembro, durante as férias escolares,
tinha eu feito 11 anos, 20 dias antes.
Era já noite, quando o júri entrou na aldeia,
passando por entre longas filas de povo, que lhe veio iluminar o caminho, com
grandes tochas e candeias de azeite acesas, porque a eletricidade, em Monsanto,
na altura, era um mito de ficção científica. As Janeiras foram cantadas a
quatro vozes, seguindo-se a procissão do Enterro do Senhor e a Encomenda das
Almas, ao mesmo tempo que o Madeiro ardia, em frente à igreja.
Nessa noite, no nosso grupo
composto por miúdos entre os 10 e os 12 anos, primos na maior parte, ninguém pensava
em dormir. A excitação era geral. Já de madrugada, o júri e a sua comitiva dividiram-se
pelas casas das gentes ricas da Aldeia, para comer e alojar. No dia seguinte,
foi o programa de cantares, danças jogos e cortejos. Fernanda de Castro,
escritora, foi levantada ao colo, pelas mulheres da aldeia. Ela e o marido,
António Ferro, Diretor do Secretariado da Propaganda Nacional que faziam parte
do Júri, foram padrinhos de um casamento e um outro casal de um batizado.
Depois veio a festa da Divina S.ta Cruz que relembrou os feitos antigos daquele
castelo. Pelas ruas da Aldeia, havia quadros em movimento (ida á romaria, a
caminho da apanha da azeitona, mães a embalar o menino, cenas de namoro, ida á
fonte, etc.), tudo com os antigos trajes regionais. Pois algumas raparigas
chegaram a exibir o vestuário das suas bisavós que jazia há anos nos fundos das
arcas coberto com bolas de naftalina. Foi uma noite e um dia de loucura, para
miúdos de 10 a 12 anos que agora já passaram dos 80 e outros já faleceram, como
o meu primo António Mena e a minha prima Isaura que foi casada com o escritor
Fernando Namora, também já falecido.
No dia 7 de Outubro de 1938,
o Júri no SPN começa a eliminar concorrentes ficando apenas Monsanto, no
concelho de Idanha-a-Nova, Paul, no concelho da Covilhã e Bucos, no concelho de
Cabeceiras de Basto, em igualdade de circunstâncias. E só no dia dez á tarde é
que MONSANTO é eleito, por maioria, a "ALDEIA MAIS PORTUGUESA DE
PORTUGAL"
No primeiro dia do mês de Dezembro,
vão a Lisboa 181 meninos das escolas, a convite da Câmara Municipal de Lisboa,
onde visitam o Castelo de S.Jorge, o Jardim Zoológico, a Câmara Municipal e um
submarino, onde lhes é explicado, para que servia e que o tinha comprado o Sr.
Salazar, para defesa do nosso Pais.
No dia 4 de Fevereiro de
1939, no teatro Almeida Garrett, (hoje teatro D.Maria) realizou-se a festa de
gala, para distribuição dos prémios literários de 1934 e entrega do Galo de
Prata à delegação do povo de Monsanto, em que António Ferro fez um discurso do
qual destaco aqui os dois trechos, para mim, mais interessantes:
“…E cabe, neste momento, responder a certas criticas provocadas pela
nossa iniciativa. Houve quem julgasse, por exemplo, que pretendíamos imitar os
famigerados concursos de beleza e que tínhamos apenas, portanto, a ingénua
preocupação de escolher, de dois em dois anos, a Miss Aldeia Mais Portuguesa.
Outros ergueram-se a afirmar, com aparente razão, que todas as aldeias da nossa
terra são igualmente portuguesas e que distinguir uma seria ofender as outras.
Observou-se, ainda, que a aldeia mais portuguesa pode, às vezes, ser a mais
atrasada. Todas estas críticas puramente exteriores, para não lhes chamar
superficiais, foram dirigidas mais ao contorno da ideia do que ao seu fundo. A
verdade é que no concurso da aldeia mais portuguesa, o que vale menos é o seu
título, apenas necessário, indispensável, como estímulo. Este concurso, vale,
sobretudo, pelo pretexto que nos dá de mergulhar na terra portuguesa, de lhe
arrancar alguns dos seus segredos, de encontrar, aqui e além, escondidas entre
as rochas, no alto das montanhas, ou no coração dos vales, as nascentes da
raça….”A primeira aldeia mais portuguesa, o primeiro fruto da nossa ideia foi
Monsanto. Gratos lhe ficamos. Monsanto veio provar, luminosamente, a utilidade
e o nacionalismo da nossa ideia. Até ser-lhe atribuído o Galo de Prata, galo
que simboliza o apelo ao trabalho, ninguém conhecia Monsanto, ninguém
suspeitava da sua existência de burgo solitário, de sentinela vigilante da
Pátria. Monsanto é mais uma fortaleza moral da nossa terra, síntese das
virtudes da raça, nossa rígida bandeira de pedra. A pequenina mas altaneira
terra beiroa, com a alma de Portugal em seus braços erguidos, tornou-se um
símbolo. Monsanto é de facto, a imagem empolgante da nossa pobreza honrada e
limpa, que não inveja nem quer a riqueza de ninguém, selo da pátria espiritual
que fomos e queremos ser. No alto do Monte Sacro dos romanos, aos pés das
ruinas fortes do castelo, este povo vive contente a rezar, a dançar e a cantar,
dando lições de optimismo às cidades fatigadas, pessimistas, compreendendo,
como poucos, o ressurgimento português, mais ávido de bens espirituais – a
escola, a igreja, a família – do que materiais. As necessidades são muitas, a
terra, por vezes, é madrasta, mas com os olhos cheios de estrelas e o coração
cheio de cantigas, considera-se feliz, porque se sente mais perto do céu do que
os outros que vivem lá em baixo.

