quinta-feira, 27 de novembro de 2008

O último encontro

Encontrei-me com alguns dos meus ex-colegas, pela última vez, há já alguns anos. Combinamos um almoço na esplanada dum restaurante da R. Eugénio dos Santos. Foi um delírio como sempre. Relembramos as maluquices dos velhos tempos da Gaiola das Malucas. Fiquei estúpido, quando a Manuela me apresentou a filha, já uma mulher. Conhecia-a tão criança. Julguei eu que se tratava duma nova colega.

Para recordar, junto algumas fotos:







Teresa a pedagoga e a filha da Manuela






Teresa a carinhosa e o Helder





Eu e a incrível Manuela



Ana Luiza dos olhos lindos e o Helder





Ana Luisa dos olhos lindos e Eu

domingo, 16 de novembro de 2008

A Gaiola das Malucas

La cage aux folles é um filme franco-italiano de 1978 e foi excepcionalmente interpretado pelos actores Ugo Tognazzi, Michel Serrault, Claire Maurier, Rémi Laurent, Carmen Scarpitta, Michel Galabru, Luisa Maneri e entrou em Portugal mais ou menos por essa altura onde adquiriu o nome de Gaiola das malucas. Todo este filme foi reproduzido em português na íntegra, com algumas alterações, mas poucas, num estúdio ali para os lados do Campo de Santana . O desempenho foi fantástico por um excelente elenco de actores, entre os quais menciono aqui por ordem alfabética, os seguintes:

Amélia Santos
Ana Luísa
António Garcia
Clara Zambujinho
Fernanda Loureiro
Filomena Almeida
Freitas
Henrique Ganho

Joana Gomes
Justina Subtil
Manuela Vermelhudo
Teresa Abreu
Zezinha

Os nomes das personagens permaneceram os mesmos, para dar mais realidade ao filme. Guião não existia. Os diálogos saíam de improviso.

Eis algumas cenas:


Henrique, Justina e Filomena

Zezinha e Portela

Maria Clara e Garcia

Helder, Henrique, Justina e Teresa

Freitas e Ana Luiza

Maria Amélia e uma figurante

Maria Clara, Manuela, Teresa e uma figurante

Helder e Manuela

FIM




































Baratas e ratazanas




A casa onde nasci era composta de uma sala, um quarto e uma cozinha. Casa de banho não existia. Os despejos eram feitos numa pia existente num saguão, ao fundo da casa. Eu dormia na sala, num divã, aterrorizado com a cabeça tapada, porque ouvia os passos curtos e rápidos das ratazanas. Nas noites de calor, chegava a suar em bica. Numa delas, ao sentir o peso duma a correr por cima do lençol, lancei um grito de tal maneira lancinante que acordei o meu pai. Foi um alívio quando o vi aparecer à entrada da sala de candeeiro a petróleo na mão. Considerava o meu pai um herói. Não tinha medo das ratazanas. Estas fugiram logo assim que o viram, mas as baratas, aos milhares, gordas e lentas demoraram mais tempo a refugiarem-se nos respectivos buracos. Mais tarde, meu pai comprou uma ratoeira de mola forte. Armava-a à noite, prendia-lhe um bocado de toucinho e de manhã eu, excitado, mas a medo, ia a ver o resultado. Lá estavam elas, às vezes, duas e três, agarradas pelo pescoço, gordas e nojentas. Eu deitava-as no lixo. Era a minha vingança.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Foi nesta rua que eu nasci ...

no dia 8 de Setembro de 1927, precisamente na primeira casa que agora está pintada de azul. Foi dali também que, a seguir ao parto, bastante difícil, minha mãe foi conduzida ao hospital onde faleceu três meses depois. Por conseguinte, nunca cheguei a conhece-la. Fui depois entregue aos cuidados da minha tia Hermínia, irmã do meu pai, que nessa altura amamentava minha prima Alexandrina, a qual faleceu 18 anos mais tarde com tuberculose.
Esta epidemia, uma das maiores de que há memória, começou a alastrar em Portugal a partir de 1930. Lembro-me, que por volta do ano de 1934, tinha eu sete anos de idade, algumas casas, na minha rua, tiveram que fechar as portas, em virtude de terem desaparecido todos os membros da mesma família. Na casa em frente da minha, existiam cinco pessoas, pai, mãe e três filhos. Duas raparigas, a Emília e a Elvira e um rapaz o Alexandre, com quem eu brincava. Tínhamos todos mais ou menos a mesma idade, entre os sete e os dez anos. A Emília era a mais velha. Dos cinco elementos só escaparam a mãe e a Emília. Já passaram mais de setenta anos e eu pergunto, onde estará a Emília a esta hora?
Pelas informações que obtive do meu “amigo” Google, tomei conhecimento que entre 1930 e 1949 a mortalidade por esta doença chegou a atingir em média 13013 óbitos por ano, começando a decrescer a partir de 1950.
Mais tarde, com 11 anos e talvez pela epidemia que ainda grassava, exigiram-me, para a entrada na escola secundária, a apresentação de um exame aos pulmões e a radiografia ao tórax chegou a apresentar uma pequena cicatriz. Além de outras, durante a minha vida, esta foi talvez a primeira vez que escapei à afiada foice de cabo longo.

Vivi naquela rua até aos 10 anos, até terminar a quarta classe na escola primária nº. 6 da Rua Pereira e Sousa, em Campo de Ourique. É um edifício enorme, tem duas entradas. Uma do lado esquerdo que dava acesso directo ao recreio das raparigas e outra do lado direito para a entrada dos rapazes. O recreio das raparigas era dividido do dos rapazes por um enorme muro alto, “não fosse o diabo tecê-las”.
A minha professora da 3.ª classe, a Dona Mariana, que deveria ter naquela altura mais de 60 anos mandava-nos guardar os livros e os cadernos cinco ou dez minutos antes da saída e, em absoluto silêncio, aguardávamos o toque da campainha, enquanto ela, pequenina, curvada, vestida de luto rigoroso, casaco comprido, chapéu, luvas e mala preta passeava na nossa frente de cá para lá. Eu, muito baixinho, disse ao meu colega de carteira:
- A professora parece uma barata. - Logo ele, muito prestadio, levantou-se e bradou:
- Senhora professora, este menino disse que a senhora parece uma barata. Fiquei aterrorizado, mas ela, muito calma, sem abrandar o seu passeio, respondeu:
- Quando ele tiver a minha idade, também há-de parecer uma barata. Não me lembro se dessa vez fui castigado, mas que experimentei várias vezes a menina dos cinco olhos, lá isso experimentei.
Para aqueles que não sabem ou que não se lembram já dessa menina, eu vou explicar. Este instrumento de manutenção da ordem, durante muitos anos, era um objecto de madeira constituído por um cabo que terminava numa forma circular com cinco pequenos furos dispostos em cruz. A cruz julgo que faria alusão à cruz de Cristo e os cinco buraquinhos talvez representassem os cincos sentidos corporais, ou se fossem sete, as sete chagas de Cristo.
Na 4ª. classe, tive uma professora nuito mais nova. Nessa época as mulheres não usavam calças e a senhora talvez distraída dava as aulas com as pernas descuidadamente abertas e como a secretária estava num plano mais elevado, a vista era panorâmica: Meias, ligas, calcinhas etc, tudo se via. Também não sei qual era a sua intenção. Naquela idade ainda não me dizia muito, mas o Alcântara e o amigo, malandros, muito mais velhos do que eu, procuravam propositadamente as ultimas carteiras para daí, com os olhos pregados nas coxas da professora, gozarem de uma maneira bastante esquisita para mim naquela idade.
Ainda me lembro quando entrei naquela escola pela mão de meu pai, levava uma sacola de serapilheira carregada de livros. Livros que eu não sabia bem para que serviam. Até um volumoso dicionário eu levava. Lá teve que o meu pai, quando descobriu, transportar aqueles livros todos de volta, deixando-me só a sacola com um caderno e pouco mais.