Esta epidemia, uma das maiores de que há memória, começou a alastrar em Portugal a partir de 1930. Lembro-me, que por volta do ano de 1934, tinha eu sete anos de idade, algumas casas, na minha rua, tiveram que fechar as portas, em virtude de terem desaparecido todos os membros da mesma família. Na casa em frente da minha, existiam cinco pessoas, pai, mãe e três filhos. Duas raparigas, a Emília e a Elvira e um rapaz o Alexandre, com quem eu brincava. Tínhamos todos mais ou menos a mesma idade, entre os sete e os dez anos. A Emília era a mais velha. Dos cinco elementos só escaparam a mãe e a Emília. Já passaram mais de setenta anos e eu pergunto, onde estará a Emília a esta hora?
Pelas informações que obtive do meu “amigo” Google, tomei conhecimento que entre 1930 e 1949 a mortalidade por esta doença chegou a atingir em média 13013 óbitos por ano, começando a decrescer a partir de 1950.
Mais tarde, com 11 anos e talvez pela epidemia que ainda grassava, exigiram-me, para a entrada na escola secundária, a apresentação de um exame aos pulmões e a radiografia ao tórax chegou a apresentar uma pequena cicatriz. Além de outras, durante a minha vida, esta foi talvez a primeira vez que escapei à afiada foice de cabo longo.
Vivi naquela rua até aos 10 anos, até terminar a quarta classe na escola primária nº. 6 da Rua Pereira e Sousa, em Campo de Ourique. É um edifício enorme, tem duas entradas. Uma do lado esquerdo que dava acesso directo ao recreio das raparigas e outra do lado direito para a entrada dos rapazes. O recreio das raparigas era dividido do dos rapazes por um enorme muro alto, “não fosse o diabo tecê-las”.
A minha professora da 3.ª classe, a Dona Mariana, que deveria ter naquela altura mais de 60 anos mandava-nos guardar os livros e os cadernos cinco ou dez minutos antes da saída e, em absoluto silêncio, aguardávamos o toque da campainha, enquanto ela, pequenina, curvada, vestida de luto rigoroso, casaco comprido, chapéu, luvas e mala preta passeava na nossa frente de cá para lá. Eu, muito baixinho, disse ao meu colega de carteira:
- A professora parece uma barata. - Logo ele, muito prestadio, levantou-se e bradou:
- Senhora professora, este menino disse que a senhora parece uma barata. Fiquei aterrorizado, mas ela, muito calma, sem abrandar o seu passeio, respondeu:
- Quando ele tiver a minha idade, também há-de parecer uma barata. Não me lembro se dessa vez fui castigado, mas que experimentei várias vezes a menina dos cinco olhos, lá isso experimentei.
Para aqueles que não sabem ou que não se lembram já dessa menina, eu vou explicar. Este instrumento de manutenção da ordem, durante muitos anos, era um objecto de madeira constituído por um cabo que terminava numa forma circular com cinco pequenos furos dispostos em cruz. A cruz julgo que faria alusão à cruz de Cristo e os cinco buraquinhos talvez representassem os cincos sentidos corporais, ou se fossem sete, as sete chagas de Cristo.
Na 4ª. classe, tive uma professora nuito mais nova. Nessa época as mulheres não usavam calças e a senhora talvez distraída dava as aulas com as pernas descuidadamente abertas e como a secretária estava num plano mais elevado, a vista era panorâmica: Meias, ligas, calcinhas etc, tudo se via. Também não sei qual era a sua intenção. Naquela idade ainda não me dizia muito, mas o Alcântara e o amigo, malandros, muito mais velhos do que eu, procuravam propositadamente as ultimas carteiras para daí, com os olhos pregados nas coxas da professora, gozarem de uma maneira bastante esquisita para mim naquela idade.
Ainda me lembro quando entrei naquela escola pela mão de meu pai, levava uma sacola de serapilheira carregada de livros. Livros que eu não sabia bem para que serviam. Até um volumoso dicionário eu levava. Lá teve que o meu pai, quando descobriu, transportar aqueles livros todos de volta, deixando-me só a sacola com um caderno e pouco mais.
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