

A casa onde nasci era composta de uma sala, um quarto e uma cozinha. Casa de banho não existia. Os despejos eram feitos numa pia existente num saguão, ao fundo da casa. Eu dormia na sala, num divã, aterrorizado com a cabeça tapada, porque ouvia os passos curtos e rápidos das ratazanas. Nas noites de calor, chegava a suar em bica. Numa delas, ao sentir o peso duma a correr por cima do lençol, lancei um grito de tal maneira lancinante que acordei o meu pai. Foi um alívio quando o vi aparecer à entrada da sala de candeeiro a petróleo na mão. Considerava o meu pai um herói. Não tinha medo das ratazanas. Estas fugiram logo assim que o viram, mas as baratas, aos milhares, gordas e lentas demoraram mais tempo a refugiarem-se nos respectivos buracos. Mais tarde, meu pai comprou uma ratoeira de mola forte. Armava-a à noite, prendia-lhe um bocado de toucinho e de manhã eu, excitado, mas a medo, ia a ver o resultado. Lá estavam elas, às vezes, duas e três, agarradas pelo pescoço, gordas e nojentas. Eu deitava-as no lixo. Era a minha vingança.
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