
Sim, porque eu tive três mães. A primeira, Maria José, deu-me à luz e faleceu três meses depois. A segunda, minha tia Hermínia, irmã do meu pai, amamentou-me durante os primeiros anos e a terceira, Maria da Ressurreição, irmã da minha mãe, acabou de me criar, casando com o meu pai.
Esta casa, da qual tenho saudosas recordações, onde passava todas as minhas férias da escola, foi construída pelo meu avô, pedreiro de profissão, há mais de 100 anos.
Ainda recordo, daquela casa, o sabor delicioso do caldo verde que a minha avó cozinhava, da sua sopa de vagens, da sua sopa de abóbora, das papas de sarrabulho, do pão que ela própria amassava, chegando ainda quentinho à mesa e que eu devorava com queijo de cabra ou azeitonas, daquelas grandes, cinzentas. E as filhoses que ela fazia, onde nunca faltava o boneco de massa com a respectiva pilinha. Bastava só um rápido golpe de faca.
Tantas saudades dos seus gritos, pela manhã, ao dar de comer às galinhas: pi-pi-pi-pi., ao som dos quais eu acordava.
O meu quarto, com as dimensões da cama, separado da sala por uma cortina de chita às flores, ficava mesmo por cima da loja onde se guardavam as alfaias, os tabuleiros de madeira para a amassadura do pão, as peneiras de rede fina, a mó de pedra. No chão, a um canto da sala, existia um asado de barro com água sempre fresquinha que minha avó equilibrava à cabeça sobre uma rodilha de pano, quando a trazia cheia do chafariz velho. Na parede do fundo, a indispensável cantareira cheia de pratos de barro com palavras carinhosas impressas tais como:
Amizade, Saudade, Lembrança ….
Na cozinha havia uma grossa laje de granito onde se cozinhava no “lume do chão” ou lareira, sobre a qual pendia vinda do teto uma corrente com um gancho na ponta e era nesse gancho que as negras panelas de ferro com três pernas jaziam dependuradas. O comer feito deste modo tinha um sabor diferente. Distribuídos pela cozinha havia alguns trapeços de cortiça que serviam de assentos.
No forro ou sótão, acessível por uma escada de madeira guardavam-se as batatas, as cebolas e outros produtos da horta situada nas traseiras da casa. Na horta, existia uma furda onde se criava o porco.
Por pressão dos meus irmãos, fui obrigado a vende-la, com muita pena minha, mas não estou arrependido. Vendi-a há-de haver uns vinte anos ao Dr. Joaquim Fonseca marido da minha prima Amélia, onde instalou com meios artesanais e rudimentares, mas com muita determinação e força de vontade uma estação emissora de radiofusão com características regionais a que deu o nome de
Rádio Clube de Monsanto.
Sou um consultor assíduo do site da RCM não só para ouvir a excelente programação, como para acompanhar a sua evolução e principalmente rever a foto da casa onde toda a minha vida começou.
Esta emissora é muito apreciada pela gente raiana que adere duma forma expontãnea a toda a iniciativa que contribua para manter bem viva a sua Rádio Popular, porque é uma voz que fala dos seus problemas e da sua terra.
Ao longo dos anos, assisti pela Internet a um crescente melhoramento das actividades da RCM, com implantação de instalações próprias, novos estúdios de produção e centros emissores, computorização dos serviços fixos e de reportagem, novas antenas, etc..
A RCM transmite, desde 1990, vinte e quatro horas ininterruptas por dia, sendo a sua programação, em termos gerais, caracterizada pela prioridade dada à música portuguesa e aos nossos valores tradicionais.
A RCM tem ainda apoiado os principais acontecimentos culturais, desportivos e sociais do concelho de Idanha-a-Nova e da região e os seus microfones têm também sido colocados à disposição de colectividades, instituições e autarquias para a divulgação dos seus eventos, reivindicações e projectos, com independência, isenção e pluralismo.
Em 23 de Maio de 1996 a emissora é distinguida, pelo senhor Primeiro Ministro, com o Diploma de Instituição de Utilidade Pública
Um grande estímulo para os seus colaboradores foi a constatação que a RCM era líder distrital de audiência, comprovado por estudo, de âmbito nacional, de uma empresa da especialidade, encomendado pela Secretaria de Estado da Comunicação Social.
É neste âmbito, que surge o desejo de continuar e principalmente de fazer mais e melhor, apesar das carências humanas e financeiras. A caminhada não conhece, porém, aqui o seu fim. Antes pelo contrário, seguiu um novo rumo : Castelo Branco, ou não fosse a RCM uma instituição habituada a desafios.
O moderno e funcional Centro de Produção da Delegação de Castelo Branco, oficialmente inaugurado em 20 de Janeiro de 2005, conta com mais de uma vintena de colaboradores especializados, que são uma mais valia para os objectivos radiofónicos da emissora da “Aldeia Mais Portuguesa”, já há muito um caso de singular popularidade.
Hoje a RCM é sintonizada por milhares e milhares de amigos ouvintes espalhados pela Beira Baixa, Beira Alta, Alto Alentejo e Estremadura Espanhola, e, no presente, também, por novos companheiros dispersos por todo o mundo.
Se os meus avós voltassem a entrar hoje naquela casa, por eles construída pedra a pedra e deparassem com microfones, auscultadores, altifalantes, mesas de som, arquivos de cd´s e todo o equipamento próprio de uma emissora ou repreendiam-me por eu a ter vendido ou preferiam voltar o mais rapidamente possível para o lugar donde tinham vindo.